Quando o café vira música

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A ideia de escrever uma coluna sobre o fascinante mundo do café na cultura pop surgiu quando me deparei com a existência quase nula de compêndios a respeito do tema em nossa língua. Esta tentativa foi facilitada ao encontrar, sobretudo na música, artistas com traços de ousadia, irreverência e até mesmo alguma petulância. Frank Sinatra ganhou notoriedade ao relacionar música e café. Considerado pela crítica um dos maiores intérpretes da música norte-americana das últimas décadas, o jovem sedutor de olhos azuis resolveu homenagear o Brasil com a composição A Canção do Café.

The Coffee Song, igualmente conhecida como They’ve Got an Awful Lot of Coffee in Brazil, em português “eles têm uma quantidade incrível de café no Brasil” é na verdade uma sátira, uma brincadeira de Sinatra ironizando a safra do café no Brasil dos anos 40, e o hábito que o povo brasileiro tem de consumir café em excesso todo dia. Composta por Bob Hilliard, a letra diz: “caminhando entre os brasileiros, os grãos de café aumentam aos bilhões. Você não consegue refrigerante de cereja, chá ou suco de tomate e nunca vai conseguir, porque eles botam café no café, no Brasil. Você sai com uma garota e descobre que ela cheira como um coador. Seu perfume foi feito no torrador dos grãos de café. Até a filha de um político foi multada por beber água e não café. E quando seu presunto e ovos precisam de sabor, Ketchup e mostarda de café lhes dá o gosto. Eles têm uma grande quantidade de café no Brasil”.

Com música de Dick Miles, The Coffee Song foi gravada por Frank Sinatra, em 1946, num ritmo frenético, alegre e contagiante, típico da música pop.

Em 1966, foi a vez da banda britânica CREAM mencionar o café na música. Formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, o grupo de blues-rock do Reino Unido teve impacto significativo na música popular de sua época. Salvo casos raros, a música inglesa inexistia como expressão popular capaz de sobrepujar os limites do Canal da Mancha. Ela não possuía tradição como o guarda-chuva ou a singularidade do ônibus de dois andares, do chapéu-coco, do volante do lado direito, da cabine telefônica vermelha, do pomposo Big Bem ou da troca da guarda do Palácio de Buckingham. Entretanto, o novo estilo musical do Cream, uma mistura de hard rock, blues-rock, acid rock, rock psicodélico, rock progressivo, provocou uma reação simultânea e avassaladora no universo da música pop.

Fresh Cream (Creme fresco) foi o primeiro álbum lançado pela banda, em dezembro do mesmo ano. Já no primeiro semestre, alcançou o 6º lugar na parada bretã e o 7º posto nos Estados Unidos da América. Com o passar dos meses, o disco superaria a marca de um milhão de cópias vendidas. Do álbum em questão, uma música se destaca: The Coffee Song. Coincidência ou não, é o mesmo título da canção gravada por Frank Sinatra, algumas décadas antes.