Patrimônio arquitetônico do café

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Visitar uma fazenda de café é uma experiência fascinante. Não somente pela natureza exuberante dos cafezais, mas pela imponência de suas casas-sede, que guardam momentos importantes do nosso passado colonial e traços da cultura brasileira.

São cenários que reproduzem o que Gilberto Freyre descreve em Casa Grande e Senzala, sobre o modo de organização social do Brasil Colônia na propriedade fundiária. Tudo isso junto à mata atlântica, com muitos hectares de campos coloridos de cerejas de café.

A arquiteta e doutora em História pela Unicamp, Ana Villanueva (foto abaixo) já coordenou a restauração de várias fazendas históricas do café. Ela explica que há duas fases importantes na história do café brasileiro, que podem ser claramente identificadas na arquitetura das casas-sede.

A primeira fase aconteceu no início do século XIX, na região do Vale do Paraíba, que compreende os municípios de Vassouras, Valença, Rio das Flores, Barra do Piraí, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Paraíba do Sul, entre outros. Nesta região, que percorre parte dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, se preservam até hoje casarios antigos, igrejas, estradas e fazendas, que pertenceram aos famosos barões do café.

“O café começou a ser produzido nessa região depois que o ciclo do ouro se encerrou em MG”, explica Ana. A região já era rota de passagem para o escoamento do ouro por Paraty. Em sintonia com os movimentos culturais que ocorriam na cidade do Rio de Janeiro, sede do Império, as construções dessas primeiras fazendas do café tinham arquitetura majestosa, de inspiração neoclássica, com gigantescos jardins frontais, grandes escadarias conduzindo à ala residencial e espaço demarcado para as senzalas dos escravos, como a Fazenda do Secretário, em Vassouras (RJ).

Porém, com a instalação de ferrovias no interior de São Paulo, a partir da metade do século XIX, a produção do café tornou-se mais viável no oeste paulista, com o Vale do Paraíba entrando em decadência. Nesta segunda fase, após a abolição da escravatura no Brasil, foram os imigrantes italianos que passaram a trabalhar na cultura do café e as casas, portanto, passaram a ter um outro tipo de influência arquitetônica.

Muitas delas eram engenhos de cana-de-açúcar adaptados para a cultura do café, o que explica diferenças na cumeeira do telhado, como na fazenda Atibaia, restaurada pela arquiteta Ana.

Com as facilidades do transporte ferroviário, as casas – antes feitas de taipas de pilão – passaram a utilizar os tijolos na sua construção. “Isso explica a difusão da arquitetura de tijolos, com forte influência do neo-renascimento italiano”, comenta Ana.

Outra curiosidade importante liga a história do café às ferrovias – a primeira companhia férrea a atravessar os estados de SP e Minas Gerais chamava-se Cia Mogiana, nome que hoje é dado à região de alguns dos mais conhecidos cafés especiais brasileiros.

O modelo arquitetônico de influência italiana também serviu de inspiração para o prédio da Bolsa do Café, em Santos, cidade portuária por onde escoava a produção. Esse prédio histórico, tombado pelo IPHAN, inspirado no Renascimento e Barroco italiano, abriga hoje o Museu do Café, espaço cultural que conta a história do café no Brasil. Suas exposições abordam detalhes que vão desde o plantio até a xícara, passando pelo mercado e curiosidades. Para saber mais, acesse http://www.museudocafe.org.br/