O pujante mercado das microtorrefações

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Quando se fala em cafés especiais é importante que se conheça todas as etapas da produção. Muitas cafeterias que servem cafés especiais explicam aos seus clientes a origem dos seus grãos e porque eles se diferenciam dos cafés tradicionais e do tipo gourmet vendidos em larga escala. Mas ainda há muita dúvida sobre a produção destes cafés e, por isso, Café Combustível foi em busca de informações para esclarecer os coffee lovers, que cada vez mais apreciam uma bebida diferenciada. 

Para que um café seja considerado especial, é preciso inicialmente conhecer a procedência do grão, produzido nas fazendas de café. No Brasil, os grandes produtores de café estão em Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Paraná. Em geral, os melhores grãos são oriundos dos pequenos produtores de café, com produção altamente controlada, resultando em microlotes.

A segunda etapa é distribuir esses microlotes e fazer a torra do grão da forma mais adequada. Em todo o país, estão se expandindo as microtorrefações -pequenos negócios voltados à torra de grãos especiais em quantidades menores e de forma artesanal. Normalmente, essas microtorrefações utilizam grãos destes pequenos cafeicultores, que se diferenciam pela qualidade e características sensoriais e, portanto, têm maior valor agregado.

Grãos são oriundos das fazendas de pequenos cafeicultores e enviados para torra

A microtorrefação é um negócio com todos os equipamentos de uma indústria de café normal, porém em escala menor de produção. O mestre de torra (profissional que torra o café), assim como mestre cervejeiro, tem controle total do processo que transforma o grão verde, cru, em café torrado, retirando do grão o seu melhor.

Os equipamentos mais modernos conseguem obter o máximo controle de torra, não deixando que passe do ponto, o que é fundamental no caso dos cafés especiais. As produções das microtorrefações têm como foco um mercado consumidor mais próximo delas e, portanto, o volume desse segmento é pequeno, mas tudo com muita qualidade e com todo o processo extremamente controlado, o que explica o valor maior do produto. A experiência da bebida é completamente diferente e muito satisfatória.

O mercado das microtorrefações cresceu muito nos últimos anos. No Rio Grande do Sul, muitos empreendedores adquiriram equipamentos de torra e passaram a trazer grãos das regiões produtoras de café do sudeste do país, para atender paladares mais exigentes e cafeterias especializadas.

As pioneiras

O Café do Mercado foi a primeira torrefação a entrar neste mercado, em 1997. Começou suas atividades com uma pequena banca do Mercado Público de Porto Alegre e, desde então, tem expandido sua atuação, fornecendo para uma gama grande de cafeterias e oferecendo seus cafés em três lojas no Centro da capital. A torrefação, localizada está localizada no bairro Navegantes e, recentemente, a empresa começou a vender alguns de seus cafés especiais em grandes redes do varejo.

Microtorrefações fazem produção artesanal. Foto: Baden

Nos anos 2000, surgiram outras torrefações como a Baden e a William e Sons. A Baden, do engenheiro agrônomo Gert Schinke, começou como cafeteria no bairro Santana, em 2012, e, dois anos depois, iniciou no negócio da torrefação, com o propósito de valorizar e expandir o mercado dos cafés especiais. A torrefação, localizada no bairro Passo D´Areia, vende hoje para várias cafeterias da capital, interior do estado e Uruguai. Oferece, ainda, cursos de barismo, métodos de preparo e encontros de coffee lovers.

As caçulas

Recentemente, novas pequenas torrefações começaram a surgir em solo gaúcho. Duas caçulas deste mercado são a Catarina Coffee Roasters, de Minas do Leão, e o Café do Gatto Specialty Coffee, localizado no bairro Menino Deus, na capital. Na esteira de seus antecessores, estes empresários perceberam a oportunidade de trazer grãos de qualidade, diretamente das fazendas produtoras e torrar sob medida para atender um mercado de nicho.

A nutricionista e educadora física Carolina de Ávila Rodrigues iniciou em 2018 a Catarina, vendendo para os amigos de academia. Hoje já abastece várias cafeterias da grande Porto Alegre. Gilmar Wathier Nunes, do Café do Gatto, começou a torrar em abril do ano passado. Os dois entraram nesse mercado como coffee lovers, fazendo cursos na Baden e viajando para conhecer as fazendas de café e decidiram se profissionalizar no ramo.

Catarina oferece para vários cafés da Grande Porto Alegre

Em Porto Alegre, a marca Catarina (o nome é uma homenagem à filha de Carolina) já está presente no Cuatro Café e Fruta, no Obra Café, no Café do Bairro e no Take Away Brio. Os cafés Catarina também são servidos no Puro Café e Vapor Café, no Vale dos Sinos. A empresa também está fechando uma parceria com a marca de chocolates Xok´s para estar com os cafés em suas lojas.

Café do Gatto tem este nome justamente em homenagem aos gatos. O empreendedor Gilmar é apaixonado por estes felinos assim como pelo café de ótima qualidade. A marca já fornece para cafeterias e restaurantes de Porto Alegre e Gramado e procura customizar sua torra de acordo com a preferência dos clientes.

Gilmar, do Café do Gatto, em sua torra

Curiosidades

Este mundo acadêmico e dos cafés é mesmo pequeno… como professora universitária tive contato com muitos colegas docentes e alunos. A Carolina, da Catarina Coffee Roasters, foi minha colega professora no IPA, antes de abrir a torrefação. E o Gert, da Baden, foi meu orientando de TCC do pós do IBGEN. O tema foi justamente um estudo de mercado para a criação da Baden. E eu nem sabia que viraria anos mais tarde Coffee Publisher e Influencer nesta área. Graças às voltas que este mundo dá, novamente nos encontramos nas pautas do café 🙂