O negro e o café no Brasil

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Hoje (20/11) é Dia da Consciência Negra e o Café Combustível lembra a presença do negro, como escravo, na cultura cafeeira. A historiadora Sibele Mezetti Humbert contribui com a pesquisa histórica. Ela é uma das organizadoras do Café Histórico sobre o Negro na Mídia Brasileira, no próximo dia 30, às 15h30, na Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães (Av. Érico Veríssimo, 167, Porto Alegre). Nesta edição, o tema será o Negro na Mídia Brasileira e a entrada é franca.

O café é uma das bebidas mais consumidas no mundo. No Brasil, a origem do café está diretamente ligada a um dos períodos mais terríveis de nossa história: o período da escravidão. A planta surgiu na Etiópia, por volta do século IX, e chegou à Europa no século XIV pela cidade de Veneza, espalhando rapidamente pela Europa e tornando-se uma bebida requintada, consumida principalmente pela elite intelectual e artística da época.

O café chegou ao Brasil em 1727 clandestinamente trazido da Guiana Francesa pelas mãos do sargento-mor Francisco de Mello Palheta. Encontrando solo e clima favorável o café difundiu-se pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, impulsionando a economia brasileira, em um momento em que a produção de açúcar estava em declínio, as minas de ouro já exauridas e o maior  exportador mundial do produto até então, o Haiti, encontrava-se em crise devido a extensa guerra de independência. Encontrando um mercado favorável, o café ficou conhecido no Brasil como Ouro Verde  e trouxe consigo uma série de modernizações, contribuindo para a urbanização das cidades. Dito isto, fica a pergunta: a que custo?

Ao custo de extensa mão-de obra escravizada. Estima-se que 4,9 milhões de africanos foram escravizados e trazidos para o Brasil. Essas pessoas tiveram suas famílias desmembradas, seus nomes e identidade quase que completamente apagados. Amplamente explorados durante o Ciclo do Açúcar e o Ciclo do Ouro, agora passavam a ser utilizados nas imensas plantações de café.

Foto: Marc Ferrez

Mas falar na história do café nos permite ir além do tema escravidão, podemos falar também em resistência e em abolição. No período que o Ouro Verde se expandia pelo Brasil, a Inglaterra estava em plena Revolução Industrial e pressionava pela abolição. Contribuindo para esse cenário, os negros escravizados organizavam-se em diversas formas de resistência, através de revoltas, fugas e formação de quilombos, por exemplo. A proibição do comércio negreiro em 1832, e em 1845 com a proibição do tráfico, contribuíram para aumentar a tensão. Somente o Brasil mantinha um regime escravocrata, sendo o último da história a assinar a abolição. A Lei Áurea de 1888, foi o resultado de mais de 300 anos de luta e resistência dos povos negros escravizados e da pressão externa sofrida pelo Império decadente.

Assim, é importante distanciar-se da visão romântica acerca das imensas plantações de café cultivadas por prósperos camponeses, e ressaltar que os processos econômicos do Brasil colonial e imperial se deram sobre uma base estrutural escravocrata que marca a história do nosso país

O Lavrador e o Café, obra de Portinari

‘O Brasil é o café e o café é o negro’. Essa frase, comum nos círculos dominantes da primeira metade do século XIX, só em parte é verdadeira. O Brasil não era só café, como não fora só açúcar. Além disto, a produção cafeeira iria prosseguir no futuro, sem o concurso do trabalho escravo. Mas não há dúvida de que nesse período boa parte da expansão do tráfico de escravos se deveu às necessidades da lavoura de café.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 6 ed. São Paulo: EDUSP, 1998. p. 192.