Lembranças dos cafés de Londres

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Além de bancária, radialista e locutora, empreendedora, estudante de Russo, mãe da Júlia e cidadã do mundo, a jornalista gaúcha Tatiana Gomes tem mais um ponto interessante no currículo – trabalhou em um café em Londres, na década de 90.

“Nunca tomei tanto cappucino e chá com leite na vida”, brinca. Assim como ela, muitos jovens brasileiros se aventuram pelo mundo a estudar e viver novas experiências, e muitos acabam encontrando nos cafés um trabalho para gerar renda, como baristas ou atendendo nas mesas.

Coffeelover assumida, Tati acha que o café integra e inspira. “Considero o café inspirador quando estou sozinha, porque, ao pegar uma mesa numa cafeteria, pedir o café, puxar o bloco e a caneta, fico tomada de divagações, sonhos e ideias legais. É uma viagem, uma terapia, um processo de autoconhecimento”, afirma.

Hoje, ao lado da filha Júlia, de 18 anos, adora frequentar cafeterias em diferentes lugares, lembrando de quando servia mesas em Londres. “Sou apaixonada pelo café com avelã, do Café Luna Park de Garibaldi, que garante um momento super inspirador”, comenta.

A própria Tati relembra essa fase importante de sua vida como atendente de cafeteria, com fatos inusitados e memória afetiva, em um texto exclusivo para o Café Combustível.

Café, idioma, vontade de aprender: elementos que abrem portas

Londres: propósito, paixão por inglês. A convite de um amigo – fui para Londres em 1992 para estudar inglês por oito meses e acabei ficando quatro anos e meio. Foi a experiência mais impactante na minha vida.

Durante esse tempo, eu trabalhei e estudei. Sempre procurei conciliar os dois. Os trabalhos foram em hotel, como nanny e em cafeterias. Foi o trabalho nos cafés que me trouxe a chance real de estar em contato diário com o idioma.

Na época, o Grand Café localizava-se na South Molton Street, em Bond Street, ruazinha com lojas e boutiques charmosas (e caras). Era perpendicular a Oxford Street então gente do mundo inteiro ia pra la, incluindo os artistas transitavam por ela com frequência. Hoje mudou para uma estação trem.

Fato inusitado: Certo dia, o ator Steve Martin esteve no Grand Café para almoçar. Chegou lá e não havia mesa disponível, então pediu para dividir a mesa com uma moça. Ele almoçou rápido. Quando pediu a conta ele decidiu pagar a conta da moça. Ela, ao pedir a conta também, ouvir de nós: o Steven Martin já pagou a sua despesa. Ela não acreditou, ficou pasma, pois sequer havia levantado os olhos para ver o comediante.

Outros artistas que foram tomar um capuccino foi o Ringo Star e o cantor Elvis Costello. O casal (na época) Melanie Griffith e Antonio Bandeiras passou pela frente do café passeando de mãos dadas olhando as lojas.

Naquela época, os artistas não eram incomodados com fotos ou autógrafos. Outro ponto a destacar era a facilidade de conhecer pessoas locais, havia muitos ingleses na parte administrativa (escritórios), e italianos na parte de estética, salão de beleza.

Muitos deles “batiam o ponto” no café todos os dias, para divagar, pensar, inclusive em algum bad day eles queriam conversar e pedir opinião. A gente virava psicóloga muitas vezes.

A equipe de trabalho (multicultural), tinha inglês, italiano, colombiano, português, romena e brasileiras, como eu e a Liana, de Nova Bréscia, que hoje mora na Suíça.

Então aprender idiomas era uma efervescência. A gente dividia sonhos. Eu e minhas colegas sempre íamos para o Hyde Park após o trabalho nos sábados. Podres de cansadas, mas íamos aproveitar o parque. Amizades para a vida.