Bach e o Café

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Você sabia que o músico alemão Johann Sebastian Bach compôs uma mini-ópera em homenagem ao café? A Cantata do Café (Kaffeekantate) é uma obra cômica apresentada entre 1732 e 1735 na Kaffeehaus de Zimmermann, em Leipzig, considerada uma das primeiras cafeterias da Alemanha (o café chegou à Alemanha em 1670).

Segundo o jornalista e coffee lover Milton Ribeiro, publisher no blog http://miltonribeiro.sul21.com.br e proprietário da Livraria Bamboletras, a ópera narra a história de um pai grosseiro e preocupado porque sua filha Lieschen cedeu à nova moda de tomar café. Para dissuadi-la do hábito, o pai propôs a ela encontrar um marido.

Lieschen então aceita a ideia com entusiasmo mas seus planos logo são revelados: o contrato matrimonial preverá que ela possa tomar café sempre que lhe apetecer.

A obra estimula o consumo do produto e também faz uma crítica ao movimento existente na Alemanha para impedir seu consumo pelas mulheres.  Na época, acreditava-se que o “negro veneno” pudesse causar descontrole e esterilidade ao sexo frágil, mas Bach, em troca do pagamento de Zimmermann, ignorou estes terríveis perigos.

Uma pequena obra-prima de Bach

Esta cantata — ao lado de outras poucas obras vocais profanas — é uma evidente exceção na obra de Bach. O compositor, que possui a injusta fama de sério, aceitou o convite de Zimmermann para compor uma propaganda de seu Café e, como quase sempre fazia, produziu uma obra-prima, uma pequena comédia que funciona tanto no palco quanto nas salas de concertos. O efeito da primeira apresentação deve ter sido consideravelmente ampliado pelo fato de que às mulheres não era permitido cantar em cafés (nem em igrejas) e o papel de Lieschen foi, provavelmente, interpretado por um cantor em falsete. Bach, com o auxílio do poeta Picander, construiu dois personagens muito humanos e verossímeis: um pai resmungão e rústico e uma filha obstinada e cheia de caprichos. O compositor parece estar à vontade ao traçar a caricatura do pai com o baixo pesado, os ritmos acentuados e a prescrição con pompa, enquanto os violinos rosnam para indicar seu temperamento irascível. Quando ele ameaça privar Lieschen de sua saia-balão de última moda, Bach indica seu tremendo diâmetro de forma escandalosa. A ária de Lieschen em louvor ao café é convencional, tão convencional que parece que o compositor quer insinuar que ela futilmente adotara tal hábito apenas para seguir a moda, o que seria um gol contra para Zimmermann. Entretanto, seu entusiasmo por um possível marido não é simulado… A alegria expressa na melodia em ritmo de dança popular é contagiosa. Para os puristas, o divino e sacro Bach chega a ser grosseiro: afinal, quando Lieschen diz que quer um amante fogoso e robusto, os violinos e as violas silenciam, como para deixar bem clara aos ouvintes a afirmativa sem rodeios. O Café Zimmermann deve ter vindo abaixo.

Comentário de Milton Ribeiro, originalmente publicado no Sul 21 em 03/01/14.

 

Veja alguns trechos da ópera

“Ah, como é doce o seu sabor. / Delicioso como milhares de beijos, / mais doce que um moscatel. / Eu preciso de café”;

“Paizinho, não sejas tão mau. / Se eu não beber meu café / as minhas curvas vão secar / as minhas pernas vão murchar / ninguém comigo irá casar”.