A nova onda dos instantâneos

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Não foram poucos os que torceram o nariz quando decidi promover uma edição do Terça Expressa sobre café solúvel. Provavelmente com alguma razão, pois é do senso comum que os cafés solúveis não são exatamente um modelo de qualidade sensorial da bebida. A consolidação desse produto no mercado se deu por conta de outra qualidade: sua inegável praticidade. De posse de água ou leite, aquecidos ou não, já é possível que o consumidor prepare rapidamente a bebida e obtenha a dose de cafeína desejada, finalidade a que atende muito bem.

Por conta dessa característica, o café instantâneo, nome que lhe é mais apropriado, tornou-se um produto bastante popular nas mesas de todo o mundo e também da brasileira. Todavia, não ficou imune ao recente raio gourmetizador. Impulsionada pelo crescente interesse do consumidor por produtos mais sofisticados, a diversidade de cafés instantâneos que podemos encontrar no mercado aumentou bastante, o que foi acompanhado pelos preços dos produtos no caso das propostas mais sofisticadas. Mas será que o aumento dos preços se reverteu em ganho de qualidade?

Com essa premissa no horizonte, propus ao público uma degustação às cegas de todos os cafés instantâneos que pude encontrar no mercado local, mais alguns produtos voltados para o consumidor de cafés especiais, como são os da Voilá e Swift, empresas americanas cujo objetivo é apresentar um produto capaz de rivalizar com o café especial “de verdade”.

Assim, utilizando uma simplificação da ferramenta de cupping, fizemos a degustação de 16 cafés instantâneos diferentes numa mesma sessão. O processo não foi exatamente fácil, pois o cupping evidencia as qualidades e os defeitos sensoriais desses cafés, que, na sua maioria, não foram concebidos com a ideia de serem apreciados puros, isto é, sem açúcar, leite ou outro ingrediente para equilibrar o sabor.

O fato é que é foi possível constatar que a indústria evoluiu bastante neste setor, especialmente nos cafés da Swift e Voilá. Se não é possível dizer que esses instantâneos se equiparam a um café especial – não parece ser o caso – se aproximaram bastante em certos aspectos, ficando ainda devendo em complexidade e finalização, que traz uma reminiscência de café requentado. Se levarmos ainda em conta o preço, aproximadamente 16 reais por xícara, a desproporção da comparação se acirra.

Quanto aos cafés de prateleira, a realidade foi um pouco mais dura na comparação direta. Obviamente que a proposta desses produtos não é rivalizar com cafés de boa qualidade, o que ficou evidente na degustação, mas mesmo nesse segmento é possível encontrar alguns cafés com características mais agradáveis, como ocorreu com certo produto liofilizado. Todavia, o método não é garantia de qualidade sensorial, pois pelo menos um dos cafés liofilizados foi consenso geral de reprovação. Logo, não são todos iguais, ao contrário do que muitos podem imaginar.

Por isso, se você faz uso diário ou até eventual café instantâneo, sugiro que de vez em quando experimente um ou outro lançamento do mercado, pois é bem possível que encontre um produto que melhor se adeque às suas preferências de paladar. Já os puristas do café especial podem ficar aliviados, pois o produto que vai desbancar os métodos tradicionais ainda não chegou – por enquanto…

Rodrigo Kirsch